terça-feira, 30 de setembro de 2008

Asa quebrada.

Hoje, no terminal de ônibus Pártenon onde fica a ambulância que trabalho, eu e meu colega observávamos uma pomba cinza caminhar entre os pedestres que por ali passavam. Ela driblava entre as pessoas, meio assustada e de vez em quando parava para observar outra pomba pousada sobre o telhado. De vez em quando, forçava um impulso para levantar vôo, porém não conseguia. Uma das asas estava caída e então concluímos que deveria estar quebrada. Correu por longos minutos e por fim parou, escondendo-se atrás de um pilar exausta, e assustada. Pensei no que poderia ter-lhe acontecido. Caiu do telhado? Pombas não caem de telados nem quando dormem, talvez atacada por algum felino, um cão vira-latas, ou um garoto de bodoque e mira certeira!
Meu colega falou em seguida que ela teria poucas chances de sobrevivência, pois sem voar ficaria indefesa e logo morreria. Depois recebi uma mensagem em meu celular que me deixou angustiado e introspectivo. Mensagens me causam as vezes estes impasses!, por terem frases curtas e pontuações deficientes!.. Fiquei pensativo, observando os movimentos da ave. Ridiculamente comparei minhas verdades e sonhos do passado com aquela asa de pomba que fora quebrada e arrastava-se pelo chão de basalto sujo onde tatas pessoas passavam deslocando-se aos seus destinos. Identificava-me com os movimentos incertos e circulares da ave que ora esforçava-se para alçar vôo para a liberdade, sem nada conseguir. Movimentos indecisos de vai e vem, num zig- zag nervosos na conquista do impossível. Então abri meus olhos, respirei fundo refazendo-me depressa. Conclui finalmente que ao contrario das pombas, que precisam de um par de asas para voar, eu não necessitava de nenhuma para navegar em meus sonhos e no que acredito ser liberdade. Só descobri isto quando tardiamente uma de minhas asas foi quebrada.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Atitudes descriminatórias

Ontem a noite no supermercado Big de Viamão, me aproximei do balcão de defumados para comprar bacon e tentei a custo de grande paciência ser atendido por uma senhora funcionaria que absolutamente mostrava-se com dificuldades para exercer sua função de vendedora no supermercado. Digo que tentei ser atendido, por que a forma como a funcionaria veio até mim para saber oque eu queria não era de maneira alguma um atendimento digno a um cliente. Primeiro, por que se posicionou do meu lado sem ao menos olhar para o meu rosto e quando o fez tinha um olhar que transparecia qualquer coisa do tipo descriminatória...Em nenhum momento me perguntou oque eu queria e quando lhe pedia informações sobre o preço de algum produto respondia baixo e olhava para o chão ou para os lados dando a sensação de que eu era um objetos qualquer, do qual ela já estava cansada de ver plantado naquele canto e qualquer outra coisa no supermercado precisava mais da sua atenção do que eu. Em alguns instantes pensei e revisei minha conduta diante dela, calado e sem deixar transparecer: talvez estivesse sendo de alguma forma inoportuno sem me perceber ou que talvez ela estivesse agindo daquela maneira por eu ter traços e origem claramente negra ou usar os cabelo grandes e propositalmente desalinhados. Não sei!
Pensei também que ela usava os cabelos presos atrás da cabeça em forma de coque, talvés por exigencia do supermercado, como aquelas pessoas que são de alguma religião evangélica, do qual respeito, mas não gosto da forma como se vestem e arrumam seus cabelos e nem por isto à tratei com descriminação e falta de educação. Provavelmente estava ali, por que precisa de seu emprego tanto quanto eu do meu e tantos outros brasileiros dos seus.
Bom a verdade é que comprei meu bacon e sai dali rapidamente, tentando esquecer o ocorrido. Já dentro do carro fiquei argumentando comigo mesmo que talvez devesse afronta-la, impor meus direitos como cliente, como cidadão, ou adverti-la sobre sua falta de atenção para com as pessoas, sobre descriminações etc, etc.. como eu normalmente o faria nestas situações, mas não quis, acho que estava tão bem comigo mesmo que perdoei-a e livrei-a do embaraço de se justificar. Fui-me embora sem culpa, mas consciente de que não se deve calar diante de agressões como estas.

Paixões invisíveis

A paixão te surpreende, vem ao teu encontro às vezes sem formas definidas e por caminhos inexplicáveis, e de difícil entendimento...

Um amigo, disse-me certa vez que se apaixonou estranhamente por passos que ouvia e achava ser de uma mulher do apartamento de cima do seu. Eram passos delicados e a partir disto, conseguia imaginar os movimentos doces e sedutores de uma mulher que ele jamais viu, mas conseguia construir sua forma física e movimentos gestuais, apenas no seu imaginário. Em alguns momentos até conseguia ouvir também a sua voz, mas não era isto que o fascinava, que tirava seu fôlego, sua atenção de qualquer coisa que pudesse estar fazendo no momento, era o ruido do sapato, do salto fino e alto que atritava, martelava no chão, no teto, sobre sua cabeça criando uma atmosfera de prazer e sedução secreta. Confessou-me até momentos de intimidades!.. Meses depois, quando conheceu Andréa, lastimou a traição que fizera a sua paixão invisível e aos poucos deixou de ouvir aqueles benditos passos que por meses o envolveu e nunca conheceu a quem pertencia.
Quando ele me contou esta história de sua vida, viajei no passado e lembrei-me de minhas paixões secretas, algumas delas imaginarias. E quem não as teve por mais ridícula que possa ser?
Estes sonhos incomuns que criamos e alimentamos, parecendo fora da ordem do normal , estes mecanismos complexos em prol de nossas buscas pessoais, nossas afirmações como gente que somos, deve nos garantir a certeza de que estamos vivos e precisamos disto para garantir quem sabe nossa sanidade nossa auto-estima.

domingo, 21 de setembro de 2008

Meu encontro com as Divindades da Natureza

Neste fim de semana, conheci uma família incrível, não só pela sua alegria de viver, simpatia e hospitalidade, mas também por seu respeito à vida e a natureza. Adeptos ao Xamãnismo há algum tempo, começaram a praticar e divulgar as práticas Xamãnicas entre amigos e pessoas que procuram de alguma forma interagir com a natureza e seus fenômenos de ordem espirituais que influenciam e ordenam nossas vidas no plano espiritual. Os rituais Xamãnicos fornecem-nos um aumento gradativo de nossa percepção acerca de nós mesmos e do Universo em que estamos inseridos, assim como também proporciona a auto-cura de nossas consciências e padrões negativos de comportamentos que adquirimos no caminhar da vida. Dona Maria Aleti (dona Arlete), seu filho Júlio César Ponciano e Carlos Alberto de Castro Peixoto (Sr. Castro) são os responsáveis pelos encontros, realizados em sua casa de campo em São Francisco de Paula, na serra gaucha.
Segundo Sr. Castro, o Xamanismo é uma prática exotérica e não dogmática diferenciando-se das demais por exercer a cura do corpo físico e espiritual e elevação espiritual. Elevação espiritual tanto do terreno como do espirito desencarnado.
Dirigido por uma entidade espiritual, o Mestre Pena branca que está num trabalho de união entre os povos na ordem espiritual. Trabalham com elementos: Terra, Ar, Fogo, Aguá, e o quinto elemento Éter, que chamam de energia pura.
O Trabalho ocorre uma vez por mês (trabalho de lua cheia) por que neste momento as energias são mais fluídicas facilitando o contato com esses elementosSobre o ritual:
  • Dança xamã: Visa a transformação das energias densas em energias sutis. Através da dança em uma roda e em sentido horário para possibilitar a circulação da energia em forma de cone, são manipuladas as energias intra-terrenas ou telúrica e a energia da natureza através de entidades espirituais. Ocorre também a abertura do portal ( canal de ligação com o astral) A o dançarmos na roda, entramos em contato com o nosso Eu Profundo e possibilitando também achar o próprio caminho de auto-conhecimento, permitindo às forças cósmicas naturais, harmonizarem-se dentro de nós mesmos, melhorando e atingindo satisfação em nossas vidas. A Roda simboliza todos os ciclos da vida, é o Caminho Sagrado, nos religa com nossos ancestrais e com Todas as Nossas Relações. A Roda, não representa apenas o Pequeno Universo Individual de nossa própria vida, mas : A Mente Universal, O grande Espírito, O Criador.
  • Orações e cantos indígenas(Mantras): Com o objetivo de celebração às divindades e a natureza
  • Ritual do vinho: Neste ritual, as pessoas registram sua participação e identificação no plano astral e ganhando graças ou bônus. Cada participante identifica-se dizendo seu nome completo, data de nascimento, e endereço.

  • Ritual da Consagração de objetos: Os objetos pessoais dos participantes são abençoados pelo calor do fogo e assim tornando-se uma especie de amuleto de orientação espiritual e sorte.

  • Ritual do Cachimbo: Ao fumar o Cachimbo, é de suprema importância que cada pitada de tabaco colocada no fornilho seja fumada. Cada floco de tabaco assumiu um espírito em seu corpo e é honrado como sendo a essência de Todos os Nossos Parentes em sua forma. Se o fogo, que é parte da Eterna Chama da Vida, não toca nem incendeia o tabaco, o espírito que está lá dentro não pode ser libertado em fumaça. Se a fumaça não é aspirada pelo corpo, os espíritos de Nossos Parentes e de nossos Ancestrais não podem entrar em comunhão conosco. A fumaça que sai do Cachimbo representa prece visualizada e nos lembra do espírito presente em todas as coisas. Compreendemos que toda a vida provém do Grande Mistério e retornará a essa fonte original. Graças à essa compreensão, sabemos que estamos todos juntos seguindo o mesmo trajeto, caminhando juntos em cada parte do Elo Sagrado ou da Roda da Vida.
  • Cerimonia do Pau Falante: Trata-se de um pedaço de pau consagrado para que se apresente o "Sagrado Ponto de Vista "Neste ritual não pode ser utilizada nenhuma palavra que não represente a verdade. Só fala quem estiver com o pau-falante na mão, os demais permanecem em silêncio . É uma forma de honrar a sabedoria dos outros.
Deste passeio, retornei para casa sentindo-me diferente, mais leve, mais crente nas possibilidades de melhora da vida, das pessoas com quem convivo, do nosso futuro!.. Voltei mais Feliz.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Velho Francisco

Sorridente, boca pintada mas com ar de cansaço, dona Encantada sorriu ao me ver enquanto ajeitava as sacolas do lado da cama de seu Francisco. Conheço seu Francisco de outros atendimentos realizados no abrigo de velhos. Era domingo e então lembrei-me da musica de Chico:

Já gozei de boa vida Tinha até meu bangalô
Cobertor, comida Roupa lavada Vida veio e me levou
Fui eu mesmo al_____forriado Pela mão do Im_____perador
Tive terra, arado Cavalo e brida Vida veio e me levou
Hoje é dia de visita Vem aí meu grande amor
Ela vem toda de brinco Vem todo domingo Tem chei_____ro de flor

Quem me vê, vê nem bagaço Do que viu quem me enfrentou
Campeão do mundo Em queda-de-braço Vida veio e me levou
Li jornal, bu_____la e prefácio Que aprendi sem professor
Freqüentei palácio Sem fazer feio Vida veio e me levou
Hoje é dia de visita Vem aí meu grande amor
Ela vem toda de brinco Vem todo domingo Tem chei_____ro de flor

Eu gerei dezoito filhas Me tornei na_____vegador
Vice-rei das ilhas Da Caraíba Vida veio e me levou
Fechei negó_____cio da China Desbravei o in_____terior
Possuí mina De prata, jazida Vida veio e me levou
Hoje é dia de visita Vem aí meu grande amor
Hoje não deram almoço, né? Acho que o moço até Nem me lavou

Acho que fui deputado Acho que tu_____do acabou
Quase que Já não me lembro de nada Vida veio e me levou

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Amar é absorver sentimentos saudáveis de confiabilidade, respeito mutuo e liberdade, adicionado a doses magicas de interação, cumplicidade, carinho e desejo sem entrincheirar-se em regras conceituais duvidosas. Este conjunto de frases bonitas que coloquei para formar este texto, são apenas frases, pois acredito que o amor é muito mais que isto, não possui regras, não esta ligado a conceitos de qualquer natureza que o defina. Deve ser apenas emoção, pura emoção que cresce, fazendo-nos florir, surpresos e impregnado da outra pessoa.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Teóricos da verdade

Tem pessoas que falam de amor, carinho, cuidado e atenção com a propriedade de quem os tivesse inventado e por isto, dando-nos a impressão de que dominam de tal forma o assunto que poderiam lecionar a respeito. Que através de suas palavras magicas poderiam modificar este mundo cão, tira-lo da obscuridade, conduzindo-o à luz da salvação. Ditam fórmulas, declamam frases feitas e estrofes poéticos com habilidade em resposta à tudo, porém não absorvem nada para suas vidas. Não conseguem transformar suas teorias em praticas verdadeiras; Sofrem com os percaussos sentimentais como qualquer pessoa sofre. Erram, desconfiam, frustam-se sem perceberem que grande parte de sua dor surgem por acreditarem em verdades falhas, em conceitos comprovadamente mancos. Possuem boa intenção porem são traídos por suas próprias certezas, criam estruturas conceituais frágeis que são destruídas por suas próprias condutas diante de si mesmos e dos outros. Não conseguem perceberem a necessidade de se renovarem e portanto culpam tudo que os cercam, menos o seu sonho de realidade ou sua realidade de sonho reticente e falha.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Relações com verdades

As vezes torna-se dificil sermos verdadeiros sem que nossas atitudes não sejam confundidas, sem que nossas intenções não sejam mal interpretadas e não corram o risco de ficarem a margem das instabilidades emocionais que minam por completo a relação de pequenos desafetos e frustrações. Dificil amar sem sermos nós mesmos, sem disponibilizar espaços pessoais necessários ao nosso crescimento individual. Vivemos diariamente no reconhecimento de nós mesmos e de nossos sentimentos ora bons, ora ruins, equilibrando-nos na corda bamba de emoções adolescentes que só amadurecem com as contradições, erros e também acertos. Relação madura deve ser portanto, a que zele pela liberdade, que se compromete á respeitar as oscilações de nossas verdades, das diferenças, sabendo que é difícil, mas necessario para a sobrevivencia de uma relação com a intensão de ser saudável.

sábado, 13 de setembro de 2008

Despedida

Há poucas horas atrás, eu olhava do mesanino envidraçado a grande planice verde que se estendia até o horizonte no escuro da noite. Bela planice gramada com um toldo azul-marinho solitário num canto e pequenas divisões numeradas no solo, onde se enterram corpos e que ficam catalogados em arquivos na entrada principal, bonita, clara, iluminada e extensa. As crianças passaram correndo e espalhando energia, uma delas perguntou debruçada na janela se era ali que enterrariam o seu avô. Enquanto eu olhava o corpo de seu Antônio, deitado no caixão, pensava comigo mesmo, que não parecia ser a mesma pessoa da qual lembrava antes, tão cheio de vida, sorridente e prestativo. Aquele rosto não parecia ser o dele nem tinham semelhanças. Era um semblante sério numa face pálida e inchada que jamais ví no antigo rosto alegre que corria para abrir o portão de sua casa quando eu chegava para visita-lo. Com certeza seu Antônio não estava ali, estava em minhas lembranças ainda sorridente e apressado para abrir novamente o portão.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Paraíso

Meu vizinho estava me falando sobre o paraíso. Depois de tentar varias indagações pessoais sobre o tema, enquanto limpava a grama do jardim, concluiu que só poderia formar e conceituar uma explicação definitiva sobre o assunto, depois que morresse; Mas como ainda está vivo!. Evidentemente falava através de sua visão cultural religiosa e também duvidosa. Ouvi-o em silencio, lembrando que no inicio da tarde tinha visitado o meu (paraíso), aqui bem perto de casa, com palmeiras Reais enormes de uma beleza rara, flores e um pé de Amoreira onde colhi frutos e depois saboreei-os deitado em um tronco torto de um Cinamomo frondoso, sem precisar deixar o mundo dos vivos. No mesmo instante em que eu estava por ali, passaram alguns anjos, chutando bola e mascando chiclete, sem demostrarem a minima culpa da algazarra que faziam. Decididamente o paraíso e o inferno podem estar tão perto de nós, sem que possamos enxerga-los de fato em função de nossos conceitos.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Trancas

Moema decidiu afastar-se, optou por manter-se superficial, criou a distância que talvez achasse necessária, vital à si mesma. Tem dialogos reticentes, desassociados da ternura anterior. Transferiu parte das dores físicas para alma que também sofre. Joga sedas para cima na insistencia de caçar fantasmas que não existem. Fechou todas as suas portas de comunicação e reforçou-as com trancas de rancor invioláveis. Mantem-se no silêncio, no obscuro vão do silêncio, armada, desconfiada e triste. Talvez eu também devesse fechar as minhas e buscar "o nada" como resposta!

domingo, 7 de setembro de 2008

blogs

De manhã, café preto, pãozinho francês com manteiga aquecido no microondas e o laptop sobre a mesa da cozinha, onde visito todos os blogs registrados em minha lista de favaritos. Leio-os atentamente enquanto vou bebendo meu café. Alguns, tem novidades todos os dias, outros ainda permanecem com os mesmos textos de dias ou semanas anteriores, mas mesmo assim abro-os religiosamente. Li em algum lugar que os blogs são otimos companheiros pois voce não tem a obrigação de estar frequentemente em cima deles postando alguma coisa para ser fiel à conta adiquirida. Voce pode esquece-lo por dias, meses e então num momento de pura inspiração escrever algo que considere importante pra voce ou para quem queira lê-lo. Pode ser um intreterimento, uma válvula de escape nas horas de solidão e por que não arriscar dizer, um tipo de terapia onde voce pode expor suas opiniões, alegrias, intenções e etc... Interagir, se assim desejar, com outras pessoas com idéias semelhantes as suas ou não. No meu caso, tudo começou por brincadeira e curiosidade, depois de algumas semanas ja dominando e aprendendo mais sobre os recurssos e ferramentas do programa virou uma especie de prazer necessário. Talvez um vicio agradavel.

sábado, 6 de setembro de 2008

benção de criança

Piruletumbum pra cima, piruletumbum pra baixo esta dor virará capacho!
Estas eram as palavras mágicas ditas por minha prima Júlia, quando eu e meus irmãos, íamos a sua casa visita-la. Depois passava as mão em nossos rostos e sorria dizendo:
Estão curados, podemos brincar!
Será que existia alguma magia em suas palavras, em sua caricia em nossos rostos?
A verdade é que nos sentíamos melhor, mais aliviados como se aquilo fosse uma benção divina. Depois, brincávamos até perder o folego de tanto nos divertir.
Guardávamos segredo sobre isto, para que ela não perdesse estes poderes mágicos.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Dona Noêmia

Atendi ontem dona Noêmia que estava trancafiada em seu barraco pobre, numa vila da cidade. Sua família apavorada disse-me que ela sempre agia assim, por que não tomava seus remédios com freqüência conforme a indicação da receita médica. Passava as noites em claro fazendo barulho, arrastando os poucos móveis no barraco pobre, batendo portas, falando sozinha, chorando, brigando com os vizinhos e algumas vezes tentando agredir quem a olhasse com estranheza.
Depois de muita negociação, dona Noêmia abriu a porta e veio conversar comigo dentro da ambulância. Antes, trocou de roupa, maquiou-se, perfumou-se e se sentou na maca como uma dama convidada a tomar um chá da tarde. Contou-me sua história de vida de um jeito que parecia estar muito lucida e coerente naquele momento. Falou-me que casou-se uma vez só e deste enlace teve uma única filha, que lhe deu um neto. Criou este neto como se fosse seu filho pois a mãe fora assassinada quando o menino tinha apenas dois anos de idade. Morreu esfaqueada com mais de dez golpes, enquanto dormia em sua casa. Nunca descobriram quem a assassinou e por quais motivos. Sustentou, educou e deu amor ao menino até ficar homem, criar independência e casar-se. Disse-me ainda, que desconfiava das pessoas, e de seus parentes e que tinha saudades do neto-filho que não mais a visitava. Falou-me que era louca, por que nunca aceitou a morte violenta da filha, o esquecimento do neto e a falta de justiça... Que era louca por que não se calava, não aceitava, não compreendia o silencio cúmplice das pessoas em favor da injustiça e que jamais aceitaria enquanto vivesse aquela tamanha violência em sua vida. Despediu-se de mim na porta da emergência psiquiátrica com um aperto de mão e um pequeno sorriso nobre, discreto, talvez ciente de sua loucura e desconfiada de minha normalidade oportuna. Pensei em dona Noêmia com tristeza e um pouco de culpa. Culpa dos que podem fazer tão pouco por pessoas como ela. Pensei também que tínhamos algumas coisas em comum, talvez a insatisfação, a revolta, por situações ocorridas na vida que não se consegue entender. Dores acumuladas, disfarçadas mas que em certos momentos querem se exorcizar, se soltar com cara de loucura.

Eu conheço de perto a loucura

Eu conheço de perto a loucura. Ela mora no meu sangue e me fala com voz mansa que precisa se soltar, se desvencilhar das amarras, das malhas, do convencional, das regras elaboradas, dos intuitos perversos da moral, das violências pessoais e eu com medo reprimo-a, trancafio-a, afogo-a para que não grite, não arrebente, não transborde, não mostre sua cara para os outros. Fico repetindo frases feitas, reelaborando idéias medíocres, vigiando meus gestos e intenções para me sentir normal. Aceitavelmente normal. Mas eu conheço de perto esta loucura e sei do que seria capaz de me tirar completamente o sono, fazer-me arrastar moveis pela madrugada à fora, a vagar e a gritar feito louco, falar sozinho, de mim para mim, até cansar!

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Cansaço estresse raiva.

Hoje foi mais um dia de trabalho e então cheguei muito cansado ao ponto de não ir direto para o banho como sempre faço. Deitei -me na cama com as pernas e os braços esticados, olhando para o teto branco e lembrando de todos os momentos estressantes que foi o meu dia. Penso que as vezes pode ser possível contornar estas situações de explosão, de raiva e insatisfação geral com o trabalho, mas em outros momentos a pressão gerada é tão intensa que acabamos cedendo a indignação que hora frustra, hora desacredita em dias melhores tornando-se quase impossível impedir que se acenda o pavio da desordem, e do descontrole pessoal. Acredito que todo o clima de dor, sofrimento, angustia vinda dos clientes e vitimas que atendo nas ruas muitas vezes em péssimas condições, quase mortos, não me causam tanto cansaço quanto os trâmites burocráticos, os desvios de responsabilidades, os desrespeitos, as omissões de uma fatia minima de profissionais da sociedade que acreditam piamente que tratam de saúde com decência e salvam vidas por trás de mesas, gabinetes, telefones e rádios de comunicação. Estes heróis deveriam aprender que vidas se salvam quando colocamos as mãos no sangue, ouvindo gemidos, gritos, queixas, arregaçando as mangas, respeitando limitações, desfazendo os laços das diferenças de cor, das diferenças sociais , objetivando unicamente a manutenção da vida, sem sentirem-se deuses ou juizes. Quem sabe um dia aprendam que para a realização de um trabalho serio deve haver respeito mutuo entre todas as partes envolvidas e sem divisão de castas. Quem sabe assim eu deitaria em minha cama tranqüilo e com a sensação absoluta de ter feito a minha parte com satisfação!

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