domingo, 31 de maio de 2009

A rua vazia

Há uns dias, entrei numa rua e a rua não tinha saída e estava vazia, vazia de tudo, vazia de gente, vazia de carros, de cães perambulando pelas calçadas ou ladrando nos portões; mas a rua mesmo vazia tinha um cheiro que me era peculiar e eu buscava saber o que era e eu não conseguia, não descobria, não achava o que nela me era tão próprio, tão pessoal, tão intimo daquele cheiro, daquele vazio!

Historias que se conhece

Na saída do plantão encontrei Zé Pedreira, morador de rua que tem este apelido dado por vigilantes e porteiros daqui do bairro, por ser usuário de craque e andar pelas ruas sem rumo. e maltrapilho Estava sentado na calçada, de baixo da marquise de um edifício na avenida, protegendo-se do frio e da chuva de ontem. (E que frio e que chuva!.. Quando o vi pensei comigo: Este cara vai morrer congelado!) Pouco agasalhado, abraçava-se num pedaço de papelão que era insuficiente para proteger seu corpo que tremia descontroladamente. Já em casa quando passei um pouco de café, não pude deixar de lembrar-me da situação em que o avistara e então preparei no bule um pouco mais que o de costume, coloquei numa garrafa, peguei algumas bolachas e pão e levei-lhe. Alguém caridoso havia passado por lá e lhe deixado uma manta de lã velha que usava sobre os ombros ainda trêmulos. Depois retornando para a casa, lembrei-me de uma frase que me pareceu caber nesta experiência que vivenciei: A atitude por vezes pode ser maior que a intenção. O resto da história a gente já conhece!

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Fiquei entristecido de saber que uma amiga morreu sem que eu tivesse a oportunidade de ve-la antes com vida. Passamos muito tempo juntos falando sobre a sua curiosidade de conhecer algumas cidade a beira do Pacifico, trocando receitas de patês exóticos e bebendo vinho na frente da sua gigantesca lereira de pedra nas noites frias de inverno Viamonense.

A barra do Amor é que ele é meio ermo...
A barra da Morte é que ela não tem meio termo
...

Que estranho este sentimento que agora é meu e que fica assim preso por alguns miniutos, talves horas, dentro do peito, quando se descobre a perda um amigo como Lucia, Hélio e tantos outros que ja se foram. Não é saudades, por que ainda tenho a sensação de que posso a qualquer momento levantar o telefone e marcar um encontro para um papo legal, acho que é um sentimento pessoal de vazio, de impossibilidade de trocas que fica ardendo aqui..., como se eu ficasse com pena de mim mesmo por não mais vê-los e ter ficado pra traz, sózinho, esquecido de ter sido convidado para uma grande viagem da qual eles não mais voltarão.

Resposta a o leitor

Olha, o papo pode ser reto ou sinuoso, depende da intenção dos envolvidos, mas eu tenho preferência pelos que são retos, diretos e sem frescuras. Evidentemente não se deve confundir franqueza, objetividade e sinceridade com frases agressivas e maldosas, mas... em resposta as tuas dúvidas quanto ao texto postado por mim em: 25/05/2009 com o título de "Respostas", não foi intencional passar para voce e outras pessoas algum sentimento doentio e incestuoso, quanto a minha curiosidade na (infância) de ver meu pai nu e em particular seu penis e que no texto fiz questão de escrever "pau"propositalmente. Na verdade acredito que eu tenha ido em busca de alguma afirmação, uma busca por identificação e até sob o ponto de vista de comparações firmada na diferença de idades. Oque quero dizer é que: (homens tem o penis grande e meninos penis pequeno, assim sendo, pode ocorrer por parte de uma criança, como foi no meu caso, sentimentos de comparação), ok? Me pergunto inclusive, quantas crianças já não tiveram esta mesma curiosidade com seu pai ou sua mãe, ou com tios, ou vizinhos?... Não posso me permitir acreditar que sentimentos oriundos de crianças oque pra mim tem o mesmo peso de inocência, possam ter alguma intenção de carater (...) Você deve ter tido as suas curiosidades, ou não? Se teve, deve saber do que estou falando, ou então vivemos em planetas diferentes!

Dificil entender

Se,
Mas,..
Por que,..

Entender,..Respostas...
Será que estas palavrinhas são chaves para alguma resposta ou apenas uma técnica para tentar compreender o que me parece ser definitivamente incompreensível?
Mas é assim que deve ser escrito, pensei, na tentativa de que fique um pouco mais complexo para a compreensão e apenas chame a atenção de quem venha ler e que fique ainda mais difícil de entender,
por que é difícil até pra mim, envolvido nesta trama entender. Cheguei ao ponto de não querer mais descobrir o que realmente é muito dificil e quase impossivel de se entender:
Seu Antenor deprimo com a dificuldade de solucionar seu caso na rede Pública de Saude, deu um tiro de 38 no tórax porque passou varios dias em hospitais com dor no abdomem sem que fosse resolvido? Foi o que ele justificou! As vezes é dificil entender uma queixa, diagnosticar um problema! Pensei.
Por que o médico do Samu, entendeu então que o tiro era no abdomem e não no tórax?
Por que a regulação do Samu mandou uma ambulância de suporte básica e não uma de suporte avançada, será que entenderam que um tiro no abdome fosse menos grave do que no tórax? Será que foi por isto?
Por que seu Antenor apesar do tiro, manteve-se estável, presumidamente pela regulação médica do Samu, apesar do tiro de 38 muito próximo do mamilo esquerdo?
Mas seu Antenor estava realmente estável. Que Sorte a dele!
E Se não estivesse, se piorasse? Presumir não é o mesmo que prevenir!
Se piorasse no caminho sem médico para o atendimento realmente eficaz?
O filho de seu Antenor estava preocupado era com a depressão do pai. E se voltasse a acontecer de novo? Questionava-me o jovem assustado.
Algumas coisas parecem dificeis de se entender e ficam sem respostas, e com varias interpretações porque talves sejam dificultadas pela comunicação, pelo entendimento, pela atenção e não tenham respostas mesmo!


quarta-feira, 27 de maio de 2009

Caminho das Indias

Esses dias, com pouca opção do que fazer, resolvi ligar a TV, que esqueço as vezes que tenho, e assistir qualquer coisa que me chamasse a atenção e acreditem eu conseguí! Não sei se por coincidência, vício ou lavagem cerebral, caí na TV Globo mesmo tendo alguns canais fechados da Net. Estava passando aquela novela da Glória Peres, Caminho das Índias, uma cena onde uma família de indianos, que acredito ser o núcleo de atores centrais da trama, falavam abobrinhas e dançavam como bobocas no meio da sala. Foi tão engraçado ver aquela imagem, pois achei tudo tão bobo e sem sentido e artificial ... Depois surgiu uma história mas boba ainda em que uma das moças implorava para uma mulher mais idosa a responsabilidade de ficar tutelando uma chave da dispensa da casa que lhe era negado por alguma situação que desconheço, mas que achei ridículo, apelativo e sentimentalóide. Fiquei me perguntando se o povo indiano conhecido por uma cultura milenar e espiritualidade a toda a prova eram assim mesmos, capazes de atitudes tão infantis. Talvez eu até esteja comentando ignorantemente como um leigo que não pesquisou ou estudou os hábitos comuns do povo indiano, mas estas cenas....por favor, poderiam ser substituídas por outras mais aproveitáveis!

terça-feira, 26 de maio de 2009

Para quem é normal ler:

De aorcdo com uma peqsiusa de uma uinrvesriddae ignlsea, não ipomtra em qaul odrem asLteras de uma plravaa etãso, a úncia csioa iprotmatne é que a piremria e útmlia Lteras etejasm no lgaur crteo. O rseto pdoe ser uma bçguana ttaol, que vcoê anida pdoe ler sem pobrlmea.
Itso é poqrue nós não lmeos cdaa Ltera isladoa, mas a plravaa cmoo um tdoo.

Lições

Mas e dai, oque fazermos afinal com tudo que aprendemos sobre nossa vida? O que fazer afinal com tudo isto que aprendemos, se muitas vezes fica impossivel aplicar e cada dia que passa novas lições resurgem? Aprendemos uma e mais uma e outra lição nova que vai se acumulando sobre as outras e pondo em dúvidas nossas certezesa. Não dá nem tempo de testar para ver se funciona!

Receita para um dia melhor

Se o dia não sorri para mim eu sorrio para ele e faço isto tentando atender meus pacientes com bom humor e induzindo meus colegas a cantarem comigo cada vez que saímos para uma emergência. Talvés eles me achem um louco ou um palhaço, mas é somente na loucura e nas brincadeiras de um palhaço é que se pode viver levemente e com um pouco de paz!

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Diario de Bordo

Será que é este o caminho, é por ai, é isto mesmo que eu quero, permitir-me? Não pensei que teria suficiente coragem para tanta exposição.
Estranhamente faço deste blog uma terapia pessoal, uma sala aberta para diálogos com pessoas sem rosto. O Diario de Bordo é uma via de acesso pra dentro de mim.

Respostas

Marcio e eu ficamos falando semana passada, sobre a infância que cada um de nós vivenciou junto de suas famílias, ao lado de seus pais, irmãos, tios, avós. Sobre brincadeiras que compartilhamos entre amigos, sonhos que construímos e que foram abandonados, medos, curiosidades, fantasias da juventude, frustrações.
Lembrei de alguém ter me falado que estes pequenos fleches de memória, são pedaços do arquivo, fragmentos desmontados da história de nossa vida e que lembrados ou não é o que constitui o indivíduo que somos hoje, com falhas, traumas e impossibilidades. É a semente de tudo e que dificulta o encontro das respostas sobre nós mesmos, sobre nossas inquietações geradas por circunstancias que ficaram lá para traz e que se perderam pôr não terem sido esclarecidas e respondidas no momento certo. Hoje compreendo a importância de se ter respostas as nossas duvidas, do esclarecimento que se faz necessário a formação do nosso carácter e que deve ser explorado, experimentado, testado até ser encontrado alguma resposta que caiba em nossas sub-certezas.
Bom, mas retomando:...Bebíamos eu e Marcio, um whisky de marca boa e gosto ruim quando lhe disse da curiosidade que eu tinha na infância de ver o (pau) do meu pai. Acho que queria fazer comparações com o meu, estas coisas de identificação, sei lá... Eu fantasiava demais esta história, pois assistia minha mãe sem roupas e com muita naturalidade sempre que saia do banho e ele não. Um dia eu já cansado desta história pensei ter desistir de tudo isto e sentia muita culpa e tudo passava a ser muito dificil de carregar. Mais tarde eu já adulto e ele de pernas amputadas pela doença, pude afinal ver o objeto de minha curiosidade enquanto auxiliava-o no banheiro de casa. Minha curiosidade acabou naquele momento aparentemente sem traumas, por que também já havia se dissipado o interesse, mas entendi o quanto eu precisava ser respondido a esta fixação antes, muitos anos atrás, antes de ter gasto tanta energia e alimentado tantas neuroses e monstros a este respeito.
Fiquei depois alguns minutos calado, pensando em outras coisas e me perguntando por que tenho tanta dificuldade de aceitar determinadas situações que me foram por demais dolorosas. Penso ter virado a pagina e quando menos espero a ferida volta a sangrar como um machucado novo, já quase esquecido, resolvido, cicatrizado. Penso que não consigo aceitar aquilo que fugiu da minha compreensão, que não metabolizei dentro da minha cabeça por que ficaram respostas vagas, subentendidas e sem a verdadeira razão de terem acontecido.

sábado, 23 de maio de 2009

Bilhete

Acordei hoje à tarde com o peso da embriaguês de ontem á noite... Ou foi delirio, ou orgasmo, ou loucura mesmo?... Não vi o filme que deixastes no DVD, mas tenho observado atentamente meu esforço e o teu, que são resgates mutuos na ajuda de ser-mos pessoas melhores. As discussões tem sido validas, embora surja no caminho pedras, labirintos, reações de proteção adversas ao processo de transformação. Fiquei mastigando frases, remontando idéias que não fechavam na colcha de retalhos. Meus anticorpos emocionais reagem rapido, perdoe-me. Tu tens razão, não preciso viver as expectativas dos outros. Vou caminhar mais um pouco aqui dentro, talvés escreva, talves saia, talves durma. Boa noite!.. Até!...

Revelações

Foi ontem, no encontro regado à vinho e chocolate lait, que trocamos idéias e cruzamos olhares curiosos, desconfiados, saudosos, amistosos, maldosos, traídos, entre intervalos de frases que desafiavam verdades e silenciavam-se no minuto seguinte. Tua blusa Bordo era a combinação perfeita com a taça de vinho presa na mão. Tantas coisas combinando, tantas ditas e repetidas pareciam descobertas novas, revelações necessárias ao fluxo do acaso, da noite que se ia em direção ao dia. Mais tarde já quase bêbados, quis te devorar, te machucar, fazer do teu corpo meu próprio corpo, único, fusão inseparável, já com as almas flutuando confusas sobre nós, a nenhum dos dois mais pertenciam.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Fragilidades

Hoje, no final do plantão, quando recebi o chamado para atender minha colega Dirlene que sofreu um acidente na ambulância, enquanto removia um paciente para o hospital, repensei sobre os riscos que corremos durante os plantões trafegando por toda a cidade resgatando pessoas. Vendo-a deitada e com dor sobre a maca, reforçou-me a certeza do quanto somos frágeis e que estamos a mercê dos mesmos risco como qualquer pessoa.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

A hora da verdade

Foi num dia destes, que não consigo lembrar ao certo, que me olhando no espelho, a cara cheia de espuma para fazer a barba, que me deparei com aquelas duas bolcinhas escuras e volumosas embaixo dos olhos. Fiz caretas e mais caretas e lá estavam elas, visivelmente palpáveis se eu quisesse toca-las e ter certeza de que estavam ali para serem entregues aos cuidados de Pitanguí. Alba já havia me alertado quanto a sua existência, mas não tinha dado a devida atenção. Mas agora eu mesmo as percebia com meus próprios olhos registrando a transformação que para mim surgiu de repente, de um dia para o outro e me tomando de surpresa na frente do espelho mentiroso. Fiquei pensando sobre uma conversa que já havia tido, não lembro com quem, sobre as transformações que sofremos no decorrer do tempo e que para nós parece imperceptível, até que num dia a ficha cai e completa a ligação. Não acompanhamos nossas próprias transformações ou se percebemos são a passos de tartaruga, numa linha de tempo muito, muito maior do que quem está de fora, nos assistindo envelhecer. Ontem o Gemele, cardiologista do hospital, já de cabelos completamente brancos, vindo em minha direção, estendeu-me a mão num cumprimento caloroso e disse-me sorrindo:
_Puxa meu velho ainda não te aposentaste?
Mais tarde quando levei um acidentado para a sala de emergência, observei que uma senhora empurrando uma cadeira de rodas me observava atentamente e depois quando retornei a o corredor ela me interpelou:
_Então não está lembrado de mim,.. a Maria Helena que foi vizinha da...!
_ah, claro!...
Sorri e fiquei envergonhado de não a tê-la reconhecido com um rosto agora enrugado e bem mais escuro do que eu lembrava de seu semblante. Putz, que coisa!...esta sucessão de fatos parecia-me um aviso insistente. Respirei fundo, bem fundo!
Lembrei daquelas pessoas que nunca nos viram antes mais jovens e que exclamam, (talvés mentirosamente), dizendo que estamos muito bem e nem aparentamos a idade que realmente temos. Felizmente ainda ainda encontro muito desses mentirosos por ai!

Carne, vale

Soube ha pouco, por uma ligação telefônica de minha irmã, da morte de uma tia que não via há bastante tempo e que ainda mantenho carinho. Lembrei-me de alguns momentos em que ficávamos pôr horas na cozinha ou no pátio de sua casa conversando sobre manifestações espirituais e outras coisas inexplicáveis que aconteciam no mundo e no dia a dia das pessoas. Decifrava mensagens de mortos, fazia benzeduras e orações estranhas em línguas desconhecidas. Tia Dora era uma mulher espiritualizada e misteriosa e que me fazia viajar pôr um mundo que não é a nossa realidade, mas que nos deixa pensativos sobre a possibilidade de sua existência. Da ultima vez que a vi, ja tinha a postura curvada e beirava os cem anos. Quando recebi a noticia de sua morte meu corpo ficou estranhamente tremulo e uma sensação de ansiedade. Fiquei saudoso de nossa convivência e registrei sua imagem tomando chimarrão e fumando cigarros sem filtro numa cadeira de balanço.
*Carne,vale (latim-adeus carne)

O guarda-roupas

Fiquei sensibilizado pôr ver minha irmã esta semana, triste, fragilizada com algumas angustias pessoais não resolvidas. Vê-la assim alterada, me causou muita preocupação, embora eu não tivesse nada para lhe dizer, por que não sabia oque dizer. Em frações de segundos, vendo seu rosto modificado e com contidas lágrimas nos olhos, lembrei-me da mesma menina que eu trancava no guarda-roupas para que parasse de chorar enquanto nossa mãe não chegava do trabalho. Éramos muito pequenos e eu cometia esta atitude que parecia um ato de violência, mas que na verdade era  uma forma inocente de proteção. Ela acabava pôr se acalmar e dormia embolada entre cobertores e travesseiros até nossa mãe chegar, ou que lembrássemos dela, ali resguardada. O guarda-roupas parecia-me um mãe postiça, grande, acolhedora e silenciosa.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Quebrar o braço

As vezes fico pensando no grito que não dei, pôr medo do que ele pudesse causar nas pessoas que amo e que convivo. Fiquei muitos anos me sentindo um covarde pôr não ter tido a coragem necessária de ter lançado este grito. Hoje passado algum tempo, fico pensando em como eu seria, que tipo de pessoa me tornaria, seria tão diferente do que sou hoje se o tivesse feito, se não tivesse tanto medo das incertezas e que rumo me conduziria?
Um dia pensei em como seria quebrar um braço e fiquei tão curioso e empolgado com a idéia que passei a sonhar e provocar situações perigosas com o objetivo de quebra-lo realmente e desvendar minha curiosidade que passara ser quase um objetivo. Sabia que sentiria dor e o quanto poderia ser incomodo o peso do gesso dificultando a liberdade dos meus movimentos. Esforçava-me nas tentativas que sempre saíram frustradas pôr medo do arrependimento, do que pudesse vir a sentir além da dor imediata e a responsabilidade de ter tido uma idéia tão idiota. Até hoje nunca quebrei meu braço, mas fico pensando em como me sentiria se tivesse

terça-feira, 19 de maio de 2009

Colcha de retalhos

Debruçado sobre a janela, vejo um pedaço da rua, um pedaço do céu, um pedaço de telhado, um pedaço de árvores que balançam neste clima de inverno que contemplo daqui, do meu quadrado, às vezes aconchegante, às vezes silencioso, às vezes intimo, tão intimo que sinto-o quase um pedaço de mim, do meu corpo, da minha existência, da minha liberdade, dos meus sonhos preso neste quadrado. Tudo que vejo parece estar enquadrado neste ângulo da minha óptica louca e que estou vendo agora. Estes pedacinhos quadrados, fragmentados, cortados na mesma metragem absoluta e costurados uns aos outros com diferentes estampas coloridas, motivos geométricos e que me forçam a desviar-me a atenção da verdade, são armadilhas, impedindo-me de ver o conjunto todo, a colcha de retalhos completa.
A colcha é o retrato de tudo, é o conjunto, é a história completa destes pedaços perdidos, e dividido que sou, que vejo com ou sem fantasias. A colcha é tudo, é o diferencial dos fragmentos, sem pedaços isolados, que dificulta a visão e compreensão geral.

Difícil estende-la para se ver a verdade!

A receita da Pizza...

Semana passada comemorei meu aniversario entre amigos e então resolvi fazer a pizza de atum que lembro alguns anos atrás ser minha especialidade, ou a carta coringa guardada na manga, as vezes necessária na hora do aperto. Todos ficavam boquiabertos e com água na boca com a minha obra-prima culinária pois alem do sabor a massa crescia e ficava crocante e alta sem que eu ao menos seguisse qualquer receita escrita, era tudo intuitivo e pôr mais que eu alterasse alguma coisa sempre parecia sair do mesmo jeito sem preocupações. Jogava todos os ingrediente numa bacia, misturava sem qualquer cuidado, depois forma e forno quente, minutos depois era só deliciar-se e receber elogios. De um tempo para cá, não consegui mais acertar o ponto da pizza como era antes, e todas as outras que fiz depois, se recusaram a crescer e ficarem vistosas e de sabor incomum como eram naqueles velhos tempos em que eu brincava de ser um grande cozinheiro e saiam todas perfeitas. Me pergunto se devo ter mudado alguma coisa nos ingredientes ou será que a minha intuição perdeu parte da receita? Hoje tentarei mais uma vez!

Preconceito

Agora, as 4 horas da manhã, perdi o sono e lembrei-me de dona Judithe de 95 anos que desmaiou em sua casa e então fui chamado para atende-la. Sua idade era conferida pelos cabelos brancos e ralinhos eo rosto enrugado. Me surpreendi de perceber na minha chegada, seu medo da morte. Agarrava-se nos braços da filha de 60 anos e da empregada gritando para que não a deixassem morrer pois ainda era muito cedo. Embora não corresse no momento qualquer risco de morrer, seu pânico em pensar sobre esta possibilidade a deixava tão assustada quanto fora da razão. Depois de deixa-la num hospital, ainda aos prantos, para consulta e liberar-me para outros atendimentos, fiquei pensando na surpresa que me causou ter visto aquela cena de pavor da morte, em se tratando de uma pessoa tão idosa quanto ela. Também questionei meus conceitos naquele momento e percebi estar tendo pensamentos e atitudes discriminatórias por achar incomum numa idade como a dela ter medo de morrer, como se nesta idade devesse estar preparada para oque um dia será inevitável. Talvés eu pensasse que os velhos devessem esperar a morte com resignação e coragem dos que já viveram muito... Talvés eu não soubesse de nada... Talvés tudo aquilo fosse uma aula de revisão de atitudes, talvés fosse minha oportunidade de aprender um pouco mais sobre a vida e que não importa a idade, não estamos preparados para enfrentar a morte até ela acontecer.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Maio


Mesmo não sendo ainda inverno, caminhar hoje pelas ruas da cidade, me trouxe a sensação agradável desta estação tão temperada de sentimentos íntimos. O frio agrega em mim emoções que transcendem minha compreensão, arremessando-me para outros tempos, outros lugares, talvez outras vidas!
Mais tarde quando começou a chover, um silencio misterioso caiu sobre as casas, a rua, o bairro inteiro. Acho que sempre quis esta sensação de quietude, de pit stop, para que o som da minha alma de mãos dadas ao silencio da natureza, falassem mais alto acompanhados do ruido da chuva.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

A Festa de Aniversário


É, devo confessar que em algum momento da vida, minha alma deve ter ido de encontro a alma das mulheres e então fazendo um reconhecimento encantou-se com o que viu, apaixonou-se e nunca mais se afastou deste convívio. Na festa do meu aniversario, algumas estavam presentes dando-me a honra de dividir comigo seus momentos, sua companhia, suas alegrias!

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Poema dos Olhos da Amada

Ó minha amada
Que olhos os teus
São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe dos breus...
Ó minha amada
Que olhos os teus
Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus...
Ó minha amada
De olhos ateus
Quem dera um dia
Quisesse Deus
Eu visse um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus...

Vinicius de Moraes.

Feliz aniversário

Hoje completo cinquenta e um anos de idade. Pela manhã, na saida do plantão, olhando-me no espelho do carro, fui o primeiro a me dar o abraço e pensar sobre minha vida e trajetória... Ainda tenho sonhos e penso em poesia como nos primeros aniversários que comemorei.

Olhos de luz e sombra

O que tem teus olhos que me detém tamanha curiosidade,
que empurram-me sobre paredes, montanhas
e abismos sombrios?
Eu ja sem força,
já quase morto, silenciado.

Olhos de luz com sombra de tristeza que me alimentam de culpa,
que me ateia fogo de Invernos distantes.
Sonoras verdades, mudas...
Possuem neles perguntas que não tem respostas, fazendo-me somente baixar a cabeça!

Soneto


Por que me descobriste no abandono
Com que tortura me arrancaste um beijo

Por que me incendiaste de desejo
Quando eu estava bem, morta de sono

Com que mentira abriste meu segredo
De que romance antigo me roubaste

Com que raio de luz me iluminaste
Quando eu estava bem, morta de medo

Por que não me deixaste adormecida
E me indicaste o mar, com que navio

E me deixaste só, com que saída

Por que desceste ao meu porão sombrio

Com que direito me ensinaste a vida

Quando eu estava bem, morta de frio.

Chico Buarque

sábado, 9 de maio de 2009

Acordei com a cidade encoberta pôr brumas brancas e gelada, de longe avistei palmeiras Reais. Na cama Morgana tinha o olhar pensativo e cantava pra mim:
...Meu mar e minha mãe
Meu medo e meu champagne
Visão do espaço sideral
Onde o que seu sou se afoga
Meu fumo e minha ioga
Você é minha droga
Paixão e carnaval
Meu zem, meu bem, meu mal...

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Oque quebrou a gente cola

Dia 16 deste mês minha irmã completa 50 anos, então toda a família esta envolvida em promover um churrasco de comemoração por seu aniversario, que ela jura não dar importância, mas que no fundo sabemos que é um desdem. Meu irmão hoje durante o almoço já rabiscava a lista de convidados e a quantidade de comida e bebida para suprir a festa. Minha família sempre deu importância à comemorações que reúnem amigos e familiares em volta da mesa ou da grelha cantando um sambão e um copo de cerveja na mão. Isto que é referencia de comemoração para eles, mesmo que não estejam alegres, mas ao menos fica aquela sensação de dever cumprido, de que a data não foi esquecida ou passou em brancas nuvens. Não são muito de demonstrar aféto e quando menos se espera surge algum clima de instabilidade que faz com que a relação se quebre mas não se separe os cacos. Passado algum tempo tudo volta a normalidade e como se nada tivesse acontecido, novos encontros ou festas sem uma data comemorativa são marcadas como pretexto de colar o que rachou mas não se espatifou. No meu entender, familia sempre foi uma peça frágil e como diz a letra da musica de Ivete:
♪ ♪...o que quebrou a gente cola, refaz a nossa história de amor..' ♪ ♪

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Hoje não revirei gavetas procurando coisas do passado, mas fiquei observando meu presente e em particular o que sobrou de uma relação que parecia tão bonita antes da decisão de acaba-la por razões que envolviam diferenças pessoais, interferência de terceiros e até banalidades que vão sendo liquidificadas com insatisfações maiores e acabam pesando como um pacote único. Tenho conciencia de que rompimentos não terminam em samba e só cicatrizam no decorrer do tempo de cada pessoa... É que tomo um susto quando percebo impessoalidade e distancia, frases que parecem decoradas, cuidadosamente escolhidas parecendo cena de novela onde os diálogos são feitos para satisfazerem o grande publico.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Estrela de Luz própria


Marisa Monte é dessas cantoras que me emociona demais quando vejo-a em raras aparições na TV ou somente ouço cantar. Sua voz e repertório pra mim é da mais alta qualidade e sensibilidade. E sua postura diante da midia me faz acreditar que algumas pessoas nascem estrelas e não precisam de recursos extras para poderem brilhar, portando-se como uma trabalhadora que tem na voz a magia de espalhar delicadamente arte e emoção para quem a ouve. Tenho um infinito e particular apreço pela musica "Vilarejo" que ouvi pela primeira vez na miniserie "A Casa das Sete Mulheres". A letra da musica fala de força, simplicidade e amor que podem revelar sutis diferenças na qualidade de vida e na alma das pessoas quando se permitem ir de encontro a isto.
Há um vilarejo ali
Onde areja um vento bom
Na varanda, quem descansa
Vê o horizonte deitar no chão

Pra acalmar o coração
Lá o mundo tem razão
Terra de heróis, lares de mãe
Paraiso se mudou para lá

Por cima das casas, cal
Frutas em qualquer quintal
Peitos fartos, filhos fortes
Sonho semeando o mundo real

Toda gente cabe lá
Palestina, Shangri-lá
Vem andar e voa
Vem andar e voa
Vem andar e voa

Lá o tempo espera
Lá é primavera
Portas e janelas ficam sempre abertas
Pra sorte entrar

Em todas as mesas, pão
Flores enfeitando
Os caminhos, os vestidos, os destinos
E essa canção

Tem um verdadeiro amor
Para quando você for".

Canção de Amor


Minha mãe cantava esta musica ao pé do meu ouvido, enquanto fazia as lidas da casa, alinhavada com lembranças de sua juventude e desabafos pessoais. Dizia-me que não era feliz no casamento e que muitos sonhos deixou para traz por ter assumido a responsabilidade de criar decentemente a mim e meus irmãos. Cresci e por muito tempo sentia culpa por te-la impedido de voar sobre os mares de sua vida. Hoje eu sei que mesmo sendo uma criança eu era o unico disponivel para ouvi-la.

Saudade, torrente de paixão
Emoção diferente
Que aniquila a vida da gente
Uma dor que eu não sei de onde vem
Deixaste o meu coração vazio
Deixaste a saudade
Ao desprezares aquela amizade
Que nasceu ao chamar-te meu bem
Nas cinzas do meu sonho
Um hino então componho
Sofrendo a desilusão
Que me invade
Canção de amor, saudade

(
Elano de Paula/Chocolate).


segunda-feira, 4 de maio de 2009

Instante

"Eu vou tentar captar o instante já,
Que de tão fugitivo não é mais,
Porque já tornou-se um novo instante.
Cada coisa tem um instante em que ela é.
Eu quero apossar-me do é da coisa.
Eu tenho um pouco de medo.
Medo ainda de me entregar,
Pois o próximo instante é desconhecido..."

Clarisse Lispector.

Lobisomem

Aos 15 anos, eu ficava olhando a lua, admirado com tanta beleza e grandiosidade e me punha perplexo. Em certos momentos pensava que sua luz me induziria a determinados momentos de prazer e tristeza no quase limite da sanidade com a loucura e então revelaria-me o meu pior. Talvez provocasse em mim uma manifestação diabólica e incontrolável e criasse um ser violento e de sedução contida, guardada, chaveada em meu inconsciente com medo de virar lobisomem.
Tenho um fascínio especial pelo vento, maior que as outras manifestações da natureza. Senti-lo bater em meu rosto causa-me uma sensação solitaria de liberdade inexplicável, ouvir seu ruído sobre telhados e janelas um certo conforto aliado a um sentimento de abandono que aconchega, assistir seu movimento ao fazer flutuar papeis e folhas sobre o chão, um momento de magia trazido da infância que não sei se vivi ou criei, é como delirar num sonho acordado. Acredito que este sentimento difícil de compreender, foi marcado em minha vida por algum momento passado cuja a sensibilidade ea fragilidade estavam a flor da pele e que hoje não encontro respostas que o defina. Na verdade tantas coisas não tenho resposta e muito menos sei definir das minhas emoções como gostaria.

domingo, 3 de maio de 2009

Sexta-feira quase no final do plantão de doze horas, socorri um jovem de 15 anos, na Quinta do Portal-Lomba do Pinheiro, que dirigia uma motocicleta e atropelou um menino de 6 anos. Seu pai, angustiado e preocupado com o menino (atropelado) que ja havia sido removido por outra ambulancia e também com o estado de saúde do filho(atropelador), dizia para o garoto enquanto segurava-lhe a mão e beijava-o afetuosamente:
_Filho, a partir de hoje quero que tu seja padrinho deste menino que tu atropelastes. Quero que tu o visite todos os dias e se responsabilize pela recuperação emocional dele. Esta será a tua missão de agora em diante. Uma obrigação que assumirás em agradecimento a bênção que vocês receberam por estarem vivos!_ Dizia.
Fiquei ouvindo em silencio, surpreso e feliz com as palavras deste pai e sua atitude de conciência e respeito pela vida.

Augusto de Boal

Morreu ontem Augusto de Boal, diretor, dramaturgo e intelectual carioca do subúrbio da Penha aos 78 anos, vitima de insuficiência respiratória. Boal foi um dos expoentes de transformação no panorama teatral dos anos 60, frente ao Teatro de Arena.

"Todas as sociedades humanas são espetaculares no seu cotidiano, e produzem espetáculos em momentos especiais. São espetaculares como forma de organização social, e produzem espetáculos como este que vocês vieram ver. Mesmo quando inconscientes, as relações humanas são estruturadas em forma teatral: o uso do espaço, a linguagem do corpo, a escolha das palavras e a modulação das vozes, o confronto de ideias e paixões, tudo que fazemos no palco fazemos sempre em nossas vidas: nós somos teatro! Não só casamentos e funerais são espetáculos, mas também os rituais cotidianos que, por sua familiaridade, não nos chegam à consciência. Não só pompas, mas também o café da manhã e os bons-dias, tímidos namoros e grandes conflitos passionais, uma sessão do Senado ou uma reunião diplomática --tudo é teatro. Uma das principais funções da nossa arte é tornar conscientes esses espetáculos da vida diária onde os atores são os próprios espectadores, o palco é a plateia e a plateia, palco. Somos todos artistas: fazendo teatro, aprendemos a ver aquilo que nos salta aos olhos, mas que somos incapazes de ver tão habituados estamos apenas a olhar. O que nos é familiar torna-se invisível: fazer teatro, ao contrário, ilumina o palco da nossa vida cotidiana. Em setembro do ano passado fomos surpreendidos por uma revelação teatral: nós, que pensávamos viver em um mundo seguro apesar das guerras, genocídios, hecatombes e torturas que aconteciam, sim, mas longe de nós em países distantes e selvagens, nós vivíamos seguros com nosso dinheiro guardado em um banco respeitável ou nas mãos de um honesto corretor da Bolsa --nós fomos informados de que esse dinheiro não existia, era virtual, feia ficção de alguns economistas que não eram ficção, nem eram seguros, nem respeitáveis. Tudo não passava de mau teatro com triste enredo, onde poucos ganhavam muito e muitos perdiam tudo. Políticos dos países ricos fecharam-se em reuniões secretas e de lá saíram com soluções mágicas. Nós, vítimas de suas decisões, continuamos espectadores sentados na última fila das galerias. Vinte anos atrás, eu dirigi Fedra de Racine, no Rio de Janeiro. O cenário era pobre; no chão, peles de vaca; em volta, bambus. Antes de começar o espetáculo, eu dizia aos meus atores: - 'Agora acabou a ficção que fazemos no dia-a-dia. Quando cruzarem esses bambus, lá no palco, nenhum de vocês tem o direito de mentir. Teatro é a Verdade Escondida'. Vendo o mundo além das aparências, vemos opressores e oprimidos em todas as sociedades, etnias, gêneros, classes e castas, vemos o mundo injusto e cruel. Temos a obrigação de inventar outro mundo porque sabemos que outro mundo é possível. Mas cabe a nós construí-lo com nossas mãos entrando em cena, no palco e na vida. Assistam ao espetáculo que vai começar; depois, em suas casas com seus amigos, façam suas peças vocês mesmos e vejam o que jamais puderam ver: aquilo que salta aos olhos. Teatro não pode ser apenas um evento, é forma de vida! Atores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a transforma!"

*Discurso feito por Boal em 27/03/2009 em homenagem ao dia do Teatro, quando foi nomeado embaixador do teatro pela Unesco.

sábado, 2 de maio de 2009

Eu poderia escrever meus textos no editor do blog e ali mesmo corrigi-los e publica-los depois com segurança, mas tenho o vício antigo de ainda rabiscar minhas idéias sobre pedaços papel que encontro e que vou guardando em gavetas, armários, estantes e pastas, causando-me a sensação de que mesmo perdendo-os ficarão guardados, eternizados.
Penso que mexer em gavetas resuscita fantasmas, amores e histórias guardadas, já quase apagadas, quase esquecidas na lembrança. Encontrei um retrato de tio Nestor, (era assim que toda a família chamava o irmão de minha avó, padrinho de meu irmão e que vivia só).
Era educado e bem empregado, gentil e feminino.
Ganhava buquês de rosas vermelhas em seus aniversários. Falava sempre no grande amor que sentia pela irmã que morreu jovem de tuberculose. Nunca se casou, nunca teve filhos e passou toda a sua vida ganhando afilhados e lembrando deste amor, que alguns da familia acreditavam envergonhados, ser incestuoso.



sexta-feira, 1 de maio de 2009

De que gosto e de que não gosto? Me perguntei dia desses enquanto folhava uma revista de viagens onde ilustrava lugares paradisíacos para o descanso das ferias. Algumas perguntas que faço a mim mesmo as vezes me toma de surpresa. Gosto de tantas coisas, pensei comigo mesmo, mas outras gosto mais ou então menos que algumas. Acho que as que gosto menos, foi as que aprendi a gostar em função de outras pessoas ou situações que de alguma forma me obrigaram a ter um olhar ou sabor diferente daquilo que antes sentia. Tipo influência. Lembro-me que grande parte da minha vida, não tomava cerveja. Achava-a amarga e quando insistia em bebe-la tinha a sensação desagradável de ficar estufado e desconfortável. Depois de algum tempo, saindo para bares noturnos pela cidade é que passei a me acostumar com a bebida gelada e saborea-la com amigos mais sedentos. A o contrario, o vinho sempre foi a minha predileção, embora tenha as minhas exigências.
Mas enquanto olhava a revista onde mostrava praias belíssimas, em lugares onde sempre é verão, lembrei-me da dificuldade que tenho de me manter exposto a o Sol. Não que não goste de sol, mas a combinação de sal, sol, areia e calor ardendo o corpo me é perfeitamente dispensável, quanto a ficar espremido sob os minúsculo centímetros de sombra de um guarda-sol. Quando se trata do ar das montanhas, serra e lugares aconchegante em que se posso tomar um banho de água doce e ficar de baixo da sombra acolhedora de alguma árvore daí é perfeito. Acho que no decorre da vida, vamos fazendo adaptações em função de nos socializarmos com o próprio meio, com as pessoas, os amigos, a família e o que recebemos de informações dizendo-nos que é bom. Aderimos a gostos e prazeres que nem sempre é o nosso, mas dos outros e assim fica aquela sensação de um gostar, porém de menos.

Samu em ação

Reuniões, reuniões e mais reuniões. É o que mais vejo fazerem durante todo este tempo em que trabalho no serviço público e particularmente no SAMU há mais de dez anos. Há cerca um mês atras, novas reuniões para discutir as novas metas da nova administração e seu novo projeto de gerenciamento juntou em volta da mesa chefes e subordinados. Na ocasião regras já conhecidas foram mantidas e novas estabelecidas. Sei de toda a dificuldade encontrada de se fazer mudanças no Serviço público, assim como conheço o caráter da atual gerente e responsável técnica, sua seriedade e de seu empenho em corrigir os erros que vem prejudicando bom andamento do serviço todos estes anos. Mas a experiência vivida de outras administrações e a convivência com situações rotineiras ainda vigentes me deixa ainda inseguro e descrente quanto a viabilidade de proceder alguma mudança significativa na melhora do serviço. Lembro-me de certa vez ter mencionado numa das tantas reuniões que já participei sobre a humanização do serviço dentro do ambiente de trabalho e a mudança de regras que se faz necessária junto a regulação medica e seus dispositivos de ação. Não acredito que mudanças possam surtir efeito com normas e supervisão dirigidas apenas para o trabalhador da linha de frente sem que seja criada também aos que ficam atras da mesa tomando decisões. O funcionamento da maquina operacional hoje é complexa e ineficiente pôr falta de dispositivos administrativos que crie uma linha funcional de trabalho, organizado, competente e humanizado, sem que haja respeito e confiança entre as diferentes categorias que compõem o serviço. Quanto ao excesso de reuniões, sei que é cansativo mas também uma formas acertada de se puxar discussão e entendimento entre os interessados em algum mudança.
Ontem o dia foi muito cansativo, tirando grande parte da minha energia. Dormi tarde e acordei muito cedo pensando numa provável sexta-feira agitada. Esqueci-me que era feriado e então pulei da cama acreditando num agenda cheia de compromissos chatos que é 'pagar contas'.
Fiquei sem telefone celular, que depois de várias semanas dando sinais de mal funcionamento parou por completo. Sinto-me parcialmente incomunicável e ansioso, por vezes irritado e lembrando do homem que atendi ontem, véspera do Dia do Trabalhador, e que morreu diante dos meus olhos, soterrado sob um deslizamento de terra sem que eu pudesse fazer muita coisa. Foram horas de tensão, estresse, dor e sofrimento e por fim a sensação incomoda de impotência, de que nada poderia ser feito.

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