terça-feira, 29 de novembro de 2016

ATAÚDE.

Existe um homem que tem meus traços,
A minha cara. 
Vejo ele através da vidraça embaçada. 
No porta-retratos sobre o balcão da sala.
Ele toca violão e eu não. 
Eu tomo analgésicos e ele não. 
Ele canta, canta, canta e eu me encanto
com o seu canto.
Fico perplexo e sem atitude.
 Me fecho.
Ele é só reflexo e não tem nexo.
Eu que sou tão complexo.

CAGANDO PRO MUNDO


Cagar pro mundo, é muito mais do que a forma figurativa de dizer que não esta nem aí pra ele, mas a necessidade real de cagar, de se aliviar, de por pra fora, de esvaziar o que incomoda, o que causa desconforto num momento de urgência, quando os sentidos também não estão nem ai para as virtuosas regras da razão e preceitos sociais.
Há de se dizer ainda, que são nos momentos de urgência, que as entranhas do nosso corpo e da nossa alma, ditam as regras, sem se importar com boas maneiras, tornando-se fiel a o que realmente somos: Animais.

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domingo, 27 de novembro de 2016

COISAS ESTRANHAS DA VIDA.

Eu conheço bruxas que fazem tricô e soltam gargalhadas. Elas bebem cerveja e ouvem jazz. Sapos que se comunicam por códigos sonoros, numa comunicação secreta e indecifrável depois da chuva demorada. Serpentes que  se arrastam camufladas em volta das piscinas azuis; Gatos que se espreitam nos telhados vizinhos; Portas que batem; janelas que se abrem; Sombras que cruzam por mim rapidamente e desaparecem nas paredes de concreto. 
Também ouço assovios, frases incompreensivas, incompletas, explosões, musicas estranhas, vozes pronunciando meu nome, ao pé do ouvido.
Vejo nuvens apressadas a desenharem formas humanas, rostos, objetos conhecidos, riscos de fogo... Voces não?..
Em casa, guardo objetos excêntricos. Uma pedra verde do lado da cama, uma folha seca dentro de um livro, um lápis sem ponta, um dólar dobrado na carteira.
Como não se conformar com as estranhezas do universo, se tudo em geral, parece um pacote sem lógica?

PARECE QUE BEBE

As vezes o que te separa da realidade é a ilusão de que duas doses de uísque, uma caipirinha e uma boa conversa, (zeleguelê, quelequete, sempre o mesmo zeguelê..) que no final da noite, te provocará um milagre no outro dia. Mas milagres não existem, coincidências também não. Então quem escreve as regras, se as chaves estão sempre penduradas no mesmo lugar, para que você as encontre, mas outro já mudou o segredo da fechadura? Parece que bebe!..

NA PRIMEIRA MANHÃ



sábado, 26 de novembro de 2016

O BARCO VERMELHO E A MORSA


O menino branco, de cara branca, de cabelos de um negro profundo, de olhos pequenos e rasgados, mostra sua alma por uma pequena fresta tímida do olho e um sorriso desconfiado de menino se transformando em homem. Navega em seu barco vermelho de velas amarelas, neste pedaço de mar, separado por concreto, janelas e telhados, onde tantos já navegaram e eu na contramão o observo.
Às vezes nada mais percebo, somente as embarcações que passam e desaparecem neste mar movimentado, onde a morsa de roupão verde, de olhos maldosos, os vigia das pedras, com seu corpo flácido e pesado, seu andar dificultoso, seus dentes afiados e bigode grosso.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

UMA SOMBRA NO FIM DO MUNDO


Foi lá que eu te vi, pela ultima vez, parado sobre as pedras vulcânicas que separavam a baia do continente, e o farol vermelho na ponta do fim do mundo. Estavas atento a os pássaros barulhentos que sobrevoavam a região, talvez a o movimento das águas; Mas de onde eu estava, só via o farol, a baia e a tua sombra solitária. 
Hoje revendo esta foto, lembrei da beleza e do quase esquecido!
É interessante pensar que algumas coisas nos marcam profundamente, porque de fato, não aconteceram no momento em que deveriam e deixam a imaginação voar solta, sobre o que poderia ter sido...
Mais tarde conhecendo tuas historias, percebendo teus medos e segredos, me convenci de que estes e outros desencontros foram o melhor final.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

O CAVALO NEGRO.

Existe na minha lembrança de menino, um cavalo negro e selvagem, que me assombrava, quando corria pelo sinuoso patio da minha casa a noite, como se quisesse pular a cerca e ganhar a liberdade.
Seus olhos brilhavam na escuridão, enquanto tentava buscar uma saída a galope, a coices...
Erguia-se sobre as duas patas e logo desaparecia entre as taquareiras que margeavam o pequeno arroio já morto.

domingo, 20 de novembro de 2016

CAMINHO DAS ÁGUAS.

Caminhava pela rua, quando senti-me sendo lentamente tragado por águas cristalinas que surgiram do nada e inundavam rapidamente a cidade, que nunca tivera rio, lagoa ou praia. De repente, tudo virou numa grande superfície de água, assustadora a minha volta.
Meninos surgiram sorridentes e cruzavam sobre a água transparente, por um caminho demarcado, para que não afundassem nos lugares que pareciam mais profundo. 
O lugar era surreal e sua beleza me deixou tão assutado, que não tive coragem de acompanha-los, enquanto me olhavam surpresos e seguiam seu caminho na direção de um gigantesco portal de madeira. 
Desconfiei que não fossem simples meninos, mas seres escolhidos e eu uma testemunha vulnerável a ter uma morte lenta por submersão. 

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

MARGARIDAS AMARELAS.

Quando ela passa rebolando-se diante de mim, sei que não é pra mim, mas para uma platéia imaginaria que a aplaude impaciente e disfarça suas angustias. Este jeito audacioso e desnatural, não combina com ela, que ficava na escadaria, olhando margaridas amarelas, com os olhos rasgados.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

FAZENDA.


... E o esquecer era tão normal que o tempo parava. E a meninada respirava o vento
Até vir a noite e os velhos falavam coisas dessa vida
Eu era criança, hoje é você, e no amanhã, nós...
                                                          (M.Nascimento)


O fato é que a morte, assim como a velhice, deve ser encarada como uma continuidade da vida, uma transição natural que não possui saídas de emergência, nem protelações ou impedimentos. 
Mas eu me pergunto, o que deve doer menos, nascer ou morrer? 
Quando instintivamente permitimos a entrada de ar em nossas entranhas e a vida se acende faiscando um mundo estranho e desconhecido ou a falta deste mesmo ar a nos asfixiar, fazendo-nos perder as forças, as referencias do que aprendemos e fomos nesta vida?
Ah,. morrer deve então ser alguma forma de renascer, fazendo-se um caminho inverso...

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

PANDORGA

Minha vida é carregada de emoções e sensações que às vezes me parecem absurdas, mas que me permite navegar em pensamentos por mares distantes, sem pagar passagem.
Esta sensação de liberdade, de ter asas gigantes e sobrevoar por cima de tudo que me parece distante e intocável, me dá uma sentimento extraordinário de poder e de violação de regras, que só desaparece quando sou puxado pelo pé e percebo que sou apenas uma pandorga no comando de outra mão.

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